domingo, 10 de agosto de 2014

Memórias do Sertão, neste Blog tentarei resgatar um pouco da minha história, através da trajetória de vida de um dos sertanejos que me inspira muito , meu avô materno José Francisco de Andrade.



foto da roça onde meu avô viveu parte de sua vida.



HISTÓRIA DE VIDA DE MEU AVÔ, JOSÉ FRANCISCO DE ANDRADE.


José Francisco de Andrade e Guilhermina Maria de Jesus

Será apresentada neste Blog, um pouco da história de Vida de meu avô, José Francisco de Andrade, apelidado de Bidé, residente no Povoado Alto, município de Tucano-Ba. Falar da história de um homem, que antes de tudo foi um grande exemplo de perseverança, caráter, humildade e grande sabedoria, é sem dúvida um trabalho de grande relevância, enquanto neta, mas é também um grande desafio emocional, principalmente. Relevante, pois, no decorrer das conversas pude entender nuances da minha história que até então desconhecia.  Contudo não há como falar de todas as qualidades e trajetória de vida deste homem sem mencionar a sua fiel e leal companheira que esteve ao seu lado por mais de 65 anos, e o amou até os últimos segundos de sua vida, minha amada vó, “mãe”, e madrinha Guilhermina Maria de Jesus, uma mulher decidida, firme, de uma sabedoria admirável. Que me deu o privilégio de estar literalmente ao seu lado, até as 7:55 do sábado de 22 de fevereiro de 2014, quando com um breve sorriso se despediu. E sem dúvida ainda fiz pouco diante de tudo que ela fez por mim, perderia todas as noites de sono de novo, enfrentaria o medo de aplicar insulina outra vez, até mais se preciso fosse. Agradeço aos dois até pelas surras de manguá que prometiam me dar quando eu errava, que mesmo sem terem sido dadas, me ensinaram a ser quem hoje sou. E esse trabalho é também uma forma de atender algo que em verso minha avó sempre me dizia, todas as vezes que eu estava com eles e tinha precisava retornar para Salvador, eu sempre ouvia: Que saudade ...
Minha filha,
“Deus te dê boa viagem,
Suspiro para navegar,
Deus te dê boa memória ,
Para de nós sempre lembrar”.

 E assim para, entender como se deu a vida de meu avô, será necessário entender como surgiu a região onde nasceu e vive até hoje, por isso será apresentado um breve contexto da Cidade de Tucano, e em seguida do Povoado Alto.


UM POUCO DO CONTEXTO HISTÓRICO DA CIDADE DE TUCANO


            

A cidade de Tucano encontra se localizada no “Sertão do Tocós”. Faz parte de uma região compreendida pelo polígono da seca. Possui como fontes econômicas a pecuária e agricultura, o artesanato e o turismo. Originou se através do processo de criação de gado, no período de desbravamento do sertão baiano.  Ou seja, com desbravamento dos sertões articulou se fazendas de gado que foram se estabelecendo com base na doação de sesmarias.  Principalmente rumo ao norte, tanto que a pecuária começou ser praticada dentro de pouco tempo no nordeste da Bahia. O latifúndio de grande destaque foi sem dúvida, o latifúndio de Garcia d´Ávila, a Casa da Torre, latifúndio este que compreendia o  território do qual  Tucano fazia parte. E que, segundo o professor  e  historiador Alfredo Matta em aula, afirmou que “a extensão do território da Casa da torre começava no bairro da Pituba em Salvador, até o estado de Piauí”. Ou seja, o território tucanense faz parte das terras que foram doadas em Sesmarias a Garcia d´Ávila.
A Casa da Torre cria uma forte relação de poder, uma relação social também conhecida como coronelismo, mas que não era formada por coronéis e sim por Barões da Torre, os quais se assemelhavam com verdadeiros senhores feudais. Os Barões da Torre ditavam aos seus subordinados o que eles deveriam fazer. Este tipo de sociedade na Casa da Torre criou uma relação de favorecimento, pois quem é senhor é quem manda, quem não é só fazia o que os senhores da torre permitiam. Assim, o coronelismo que surgiu na casa da Torre ganhou dimensão que se estendeu até séculos seguintes. Os barões possuíam seus subordinados, os encarregados que acabavam virando proprietários de propriedades de terras na região, criando se coronéis na região. Assim nesta época, quem detinha poder era quem detinha mais terras na região.
A formação de latifúndios como o da Casa a Torre, proporcionou a criação da classe média de criadores do interior, consolidando o povoamento do sertão, segundo o historiador tucanense Rubens Rocha ,  neste período notava se um grande adiantamento já atingido pela criação de gado na região, assim multiplicava se muito rápido os rebanhos de bovinos, éguas, jumentos, ovelhas, cabras e porcos, estabelecendo assim currais no nordeste.  Aproximadamente no ano de 1711, existiam mais de 500 currais nos sertões da Bahia, possuindo cerca de meio milhão de cabeças de gado. O que pode ter facilitado a incorporação do Sertão a vida colonial de terras de sesmarias.


SURGIMENTO DE UM PEQUENO VILAREJO
CHAMADO ALTO

Segundos os moradores mais antigos do Alto, o povoado fui surgindo aos poucos, a princípio habitado pela família do senhor João, os quais residiam em uma propriedade localizada em uma pequena Serra, e em seguida foram surgindo moradores de pequenas propriedades, chegando a léguas de distancias entre uma propriedade e outra. Esses poucos habitantes sobreviviam da plantação de feijão, milho, mandioca,  mas principalmente da criação de animais, tais como , bovinos, ovelhas, cabras, e muito pouco da caça e pesca.
Recebeu o nome de Alto, pois um dos primeiros moradores do vilarejo era chamado de João, e por morar em uma pequena serra, passaram a chama-lo de João que mora no Alto, e assim, ele ficou conhecido como o João do Alto. Logo então o vilarejo por causa de sua propriedade, passou ser chamado de Fazenda Alto.
Em seguida, foram surgindo outros moradores próximos a Fazenda. E assim, a pouco mais de 20 anos a comunidade passou a ser considerado como um povoado, recebendo nome oficialmente de Povoado Alto.
Desde seus primeiros habitantes, o povoado é habitado por pessoas que geralmente trabalham na roça, praticando a agricultura de subsistência, criação de gado, de ovelhas, cabras, assim como também desenvolvendo atividades em olarias de tijolo e telha. Era também atividade daquela comunidade o curtume de couro, atividade já não mais praticada. Assim, segundo relatos da memória dos antigos e mais velhos moradores, cheios de sabedoria, acabam por afirmar a relação do surgimento deste povoado com o contexto histórico vivenciado pela cidade de Tucano, da qual este povoado faz parte. Apresentando como atividade principal a criação de gado durante o inverno e de cabras durante a seca,  por tratar se de um dos povoados as margens do Rio Itapicuru, é comum a criação de animais nas vazantes.
 Atualmente é muito comum o deslocamento de pessoas do pequeno povoado para a sede do município, e principalmente para São Paulo. Tanto que todas as pessoas que residem lá tem no mínimo um primo ou sobrinho morando na capital paulista.



o pôr do sol mais lindo que já vi (uma tarde de domingo no Alto)




TRAJETÓRIA DE VIDA DE JOSÉ FRANCISCO DE ANDRADE
meu avô

 Quando a história de José Francisco de Andrade começou...
No dia 24 de julho de 1924 nasceu meu avô José Francisco de Andrade. Nesse tempo o Alto ainda era chamado de Fazenda Alto. Os seus pais, os senhores Leandro e Sipriniana moravam em uma pequena roça um pouco distante das outras casas. Muito diferente de hoje, naquela época  as mulheres não  iam ter os filhos no hospital,  os partos  eram realizados por parteiras, e no dia 24 de julho o parto foi realizado dentro da casa da família, por uma senhora bastante experiente nesse ramo. E assim nasceu meu avô, em uma pequena e humilde casa de enchimento, a luz de candeeiro, pois nem sabiam da existência de energia elétrica.

Os  pais adotivos...
Os pais de José Francisco, eram bem humildes,  e devido a algumas dificuldades enfrentadas pelo casal, a sua mãe resolve deixar o filho ser adotado por outro um casal que queria adotar um menino.  Entram em cena os pais adotivos. Meu avô foi criado por pais adotivos, chamados de Nicolau e Joana, que tinham um pouco mais de condições, não eram ricos,  mas pelo menos criavam algumas cabeças de gado, cabra e ovelha ,e utilizavam o leite bovino para o consumo da família, trabalhavam na roça, no tempo de inverno plantavam feijão, milho, batata doce, e, criavam algumas cabeça de ovelha, coisa pouca, e ainda trabalhavam em olarias fazendo telha.

A infância pobre: diversão e trabalho.

Não eram só os meus bisavós que trabalhavam, meu avô começou a trabalhar na roça com menos de 8 anos de idade. Na olaria carregava o barro molhado na cabeça do barreiro para dentro da olaria, como forma de ajudar o pai. Ganhava ainda alguns trocados dos donos de um curtume, para carregar sola de couro dos coxos para lavar no o rio, e do rio para os coxos.
Quando era criança brincava muito de besta de pau (parecia um arco-flecha utilizado pelos índios), e com este objeto ele e seus amigos saiam para o mato, para brincar, o que não era para brincar de verdade, pois era uma maneira divertida de caçar aves para comer. Diziam que estavam indo brincar, mas, no entanto diziam isso para ser mais divertido, mas este era um meio de conseguir comida, enquanto brincavam. Pois, o que seus pais criavam era para vender, a comida era quase sempre  feijão puro, não tinham carne, era muito difícil comer com alguma mistura, quando conseguia comia as rolinhas assadas, ou peixe que pescavam no rio, mas  arroz por exemplo era muito difícil, só comiam arroz as vezes na semana santa, e as vezes quando adoeciam, e por isto dizia que dava até gosto ficar doente pra comer arroz. O café era torrado em casa, relata com saudade as lembranças dos pirões de café com farinha e carne assada na brasa. As comidas eram cozidas nos fogões a lenha.
Nas olarias, também tentava de tudo pra fazer daquele trabalho pesado no sol, algo mais divertido, mas carregar o barro molhado na cabeça não era tarefa fácil para uma criança, e nesse caso era mais difícil fingir que brincava. A única diversão de verdade, segundo lembrado por ele era ir para o rio tomar banho correr na praia, onde pegava os cabritos na roça jogava dentro do rio para “ensina-los” a nadar , quando eles saiam jogavam de novo na água, e assim de forma perversa com os bichinhos, se divertiam. As brincadeiras geralmente aconteciam durante o dia, por que não tinha energia elétrica, viviam a luz de candeeiro e lampião à gás.

olaria de tijolo
Olaria de tijolo, onde meu avô trabalhou adulto

É também do período da infância que meu avô relata sobre a passagem do Cangaceiro Lampião, pelas margens do rio Itapicuru, em sua ida para o povoado de Mandacaru. Mas ele disse que não ficou com medo, por que diziam que lampião não mexia com pobre.
Rio Itapicuru

Adolescência e juventude.

E assim o menino foi crescendo e, desde criança trabalhando. Passou a adolescência toda trabalhando na roça com os pais, por não tinha para onde sair, um dos períodos de maior diversão era no São João, juntos com os amigos saiam para as festas, dançavam nas quadrilhas, arrodeavam as fogueiras.  Quando terminava de arrodear a fogueira todos tinham que se olhar numa bacia de esmalte branca com água, quem conseguisse ver o reflexo de si mesmo, estaria vivo no próximo São João, caso algum deles não visse seu reflexo, pode ter certeza que morreria. Nas fogueiras eram realizados batismos, casamentos, faziam uma verdadeira farra, assando milho.
Uma cultura muito forte na época de meu avô , na região são as festas de São josé batismo e casamentos durante a queima da fogueira, regados ao som de sanfona.
A semana santa,  é uma semana de grande devoção, na qual não se pode comer carne, devido aos chamados dias santos, sendo o principal a sexta-feira da paixão, todos os filhos netos e afilhados devem ir receber a benção dos dos pais, avós e padrinhos, levava a tão esperada lata de goiabada para as madrinhas. Além de ser um dia onde as pessoas comem na casa umas das outras, a comida geralmente era o que era arrecadado nos dias de pedir esmolas, no qual os alimentos arrecadados eram para serem comidos na santa toda família reunida. Um dia de grande respeito e devoção, não se pode nem tomar banho antes de meio  dia, não pode varrer a casa e jogar o “cisco”, não pode bater nos filhos.
Festa de Vaqueiros: os vaqueiros ao conduzir ou caçar os bois na mata, cantam seus cantos de boiadeiros, com seus jalecos e chapéus de couro. Onde eles cantavam seus cantos, faziam rezas em agradecimentos a Deus.
Cântico de reis, saiam de casa em casa cantando reis, quando as pessoas já estavam dormindo um dos cânticos era este:
OH DE CASA OH DE FORA, MARIA VAI VER QUEM É,
 SOMOS CANTADOR DE REIS
ABRA A PORTA OU A JANELA, 
VENHA VER QUEM É QUE SOU.
SENHORA DONA MARIA PASSA MÃO NO SEU CHAVEIRO
 VENHA AQUI FAÇA FAVOR, SOMOS OS CANTADOR DE REIS.
 QUANDO ABRE PORTA OU A JANELA : ENTRAM EM CASA: 
SAMBA MULHER QUE O TEMPO É SEU.

Passado o São João, era o tempo da colheita do feijão, seu José Francisco trabalhou muito no cabo da enxada durante sua juventude, não só na roça como  também carreando carro de boi, carregados geralmente de lenha.

Chapéu e jaleco de couro
carro de boi





Namoro e Casamento
Igreja Matriz da cidade de Tucano/Ba



Por volta de 21 anos, meu avô conheceu Guilhermina de Jesus, começaram a namorar e logo em seguida casaram, “por que naquele tempo o namoro não era fácil como hoje, os nossos pais obrigavam a casar logo”, disse ele.  E assim em menos de um ano, casaram no religioso na igreja da matriz em Tucano.
E recém-casados foram morar na roça do João olimpo, por que morreu um filho dele o Jurandir, considerado  um grande amigo, pai de família, morreu em um acidente onde o carro de boi que carreava virou. E como o João olimpo viajava muito para a cidade, convidou meu avô para ir morar lá na roça dele para tomar conta dos bichos, e assim era a chance de ganhar um bom trocado em dinheiro, e às vezes os serviços eram  pagos com animais. Após alguns anos família mudou se para a roça da Lage, onde haviam construído uma casa de enchimento de barro, mas continuou tomando conta dos animais de João Olimpo, passaram a criar os animais de meia, ou seja, tudo era dividido entre os dois.
Roça do João Olimpo, e alguns destroços da casa, onde meu avô morou
 
casa na Lage

 E a Escola?

Na época de meu avô,  era muito comum as crianças não frequentarem a escola, tanto que ele não foi para a escola, apenas quando frequentou o mobral durante um tempo com o seu sogro Pedro senhorzinho, pai de sua esposa. Ele foi para o Mobral com mais ou menos 28 anos de idade. Nesse tempo era comum apanhar na escola. Ele afirma que não apanhou por que já era todo mundo adulto, não davam direito para apanhar. No Mobral aprendeu a ler com o ABC e as cartilhas. Mas ele mal aprendeu escrever o  próprio nome e logo abandonou o Mobral, pois não dava certo trabalhar o dia todo e ir para o Mobral à noite, e outro agravante era por que as aulas eram dadas a luz de candeeiro que era fraca, dificultava o aprendizado.
            Por ter que trabalhar muito na roça para criar os 10 filhos, meu avô vivia fazendo terra com um arado, para fazer plantio, trabalhando no carro de boi para comprar comida, “por isso não botei nenhum filho na escola, os que chegaram a estudar foram depois de grande por conta própria,  por que eu precisava da ajuda eles na roça” disse ele. 

 O Pai de 10 filhos...
O casamento de meu avô, resultou em 10 filhos, 4 meninas e 6 meninos, e teve que trabalhar muito para criar os 10. Não deu nenhum filho para outras pessoas criarem, e ainda tomou conta de duas netas, filhas Josefa sua filha mais velha que também teve 10 filhos, que deixou as duas pequenas com ele para trabalhar em Salvador. Meu avô criou todos os filhos trabalhando na roça e carreando madeira no carro de boi. Anos em que o inverno era bom ele arava a terra com o arado de boi, a esposa e os filhos pequenos plantavam, a colheita ocorria geralmente no mês de julho, e para bater o feijão, reunia toda a família e amigos nos limpos de bater feijão, já feito para isto, pois não tinha máquinas, era batido com cacetes de madeira. Ás vezes dependendo do feijão, conseguiam bater de 4 ou 5 sacos, e quase tudo era guardado para o consumo, pois a família era grande. O gado era criado de meia com o João Olimpo, assim como a mandioca também era plantada de meia, um plantava e outro fazia a farinha nas casas de farinha.
A educação de valores que foi dado para os seus filhos foi excelente, mesmo sem estudo ensinou desde cedo a importância do respeito aos outros, principalmente aos mais velhos. Um exemplo interessante dado por ele, foi um fato que ocorreu com um  de seus filhos que já era um rapaz, e em uma de suas travessuras empurrou um cachorro de cima do passeio no alpendre  da casa onde moravam, o cachorro caiu no chão chorando muito,  então meu avô pediu para o filho se deitar no mesmo lugar onde o cachorro estava deitado, e disse que iria chuta-lo como e chutou o cachorro, para que percebesse o quanto era ruim ser chutado, e nunca mais fazer isso nem com um animal. Não chegou a empurrar era só pra ele perceber o que tinha feito, e certamente ele aprendeu. Não era muito de bater nos filhos, só em falar eles já obedeciam. Minha vó que batia mais quando os meninos mereciam, e até hoje tem o manguá que ela guardou em casa para educar os netos. 
                                                                           

Preparando o manguá, para educar os netos

 


SAÍDA DA ROÇA DA LAGE

Meu avô amava a roça da Lage, mas infelizmente teve que sair de lá, pois os filhos foram constituindo família, cada um procurando seu rumo, casando e indo morar em uma parte da então fazenda Alto onde havia maior concentração de pessoas e casas, e também já tinha energia elétrica, outros foram para São Paulo em busca de trabalho, que a roça já não oferecia trabalho suficiente. E assim, só ficou em casa ele e a esposa, porém devido ao crescimento do índice de violência no município de Tucano, inclusive na zona rural, o casal foi “obrigado” a sair da Roça da Lage e ir morar mais próximo dos filhos, pensando assim que de certa forma estariam mais protegidos da violência. Afinal, já era um casal de idosos aposentados, era um risco continuar morando na Lage sozinhos. E por volta de 1998, construíram uma casa e se mudaram para onde já tinha uma maior quantidade de pessoas morando. Nesse período, aquela pequena localidade deixou ser chamada de Fazenda Alto, e passou se a ser chamado de Povoado Alto.
Mesmo com a mudança de casa não foi quebrado o vínculo com a tão amada Roça da Lage, e todos os dias bem cedinho o casal seguia a pé ou de jegue para sua antiga residência e só retornavam ao entardecer.
 
meu avô, eu e minha vó, na casa do Alto, onde meu avô ainda mora.

 E quando alguém adoecia...?
Em sua vida humilde na roça, uma de suas grandes dificuldades era quando alguém adoecia na família, utilizava se remédio do mato, ou seja, as plantas medicinais para tentar curar o enfermo. E se os remédios naturais não resolvesse, ai sim pensavam em ir para a cidade de Tucano geralmente  e iam montado em animais, jegue ou cavalo, e demoravam cerca de 5 horas, até chegar em Tucano, motivo pelo qual a grande maioria recorria as plantas e rezadeiras, que eram muito comum naquela época.
Em Tucano existiam alguns médicos já idosos, dos quais meu avô se recorda  do Dr Theotonio e o finado Pio, que atendiam de vez em quando em suas próprias casas. Os doentes iam até esses médicos, recebiam um atendimento razoavelmente bem, pois os recurso eram quase inexistentes, eram considerados pelos tucanenses como um homens bem entendidos que passavam o remédio certo, geralmente recomendavam chás naturais, lambedor ( xarope com mistura de várias ervas), pois o acesso a medicamentos farmacêutico, além de caro, era escasso e melhor mesmo era nem pensar em adoecer. 
Com a construção da Br 116, a situação melhorou um pouco pois ficou menos difícil ir para a cidade quando alguém estava doente, era comum pegar carona no tratores tanto com as pessoas doentes, e também para vender feijão na feira do município, vender animais como : ovelha, porco, galinha, cabra.


  As enchentes de 1960 e 2002.

Durante seus longos anos de vida, José Francisco se recorda de duas grandes enchentes devastadoras, uma ocorreu no ano de 1962 onde o nível do rio ficou tão Alto que invadiu vendas e bares, houve uma grande perda de animais que foram surpreendidos pela água nas vazantes. Além do grande prejuízo para as olarias de telhas e tijolos que chegaram a ficar submersas, os coxos de curtumes foram invadidos pela fúria da água. A outra enchente ocorreu em janeiro de 2002, tão impetuosa quanto a primeira, invadiu a pequena praça da pequena localidade, as crianças, jovem e adultos, faziam de toda aquela devastação um parque de diversões, os mais corajoso pulavam das árvores e nadavam metros até chegar em terra, pulavam dos balcões dos bares. Era muito perigoso quando aconteciam essas enchentes, pois o povoado ficava absolutamente cercado por água, ilhados por vários dias. A travessia do rio era feita e ainda é, por meio de pequenos barcos, cavaletes e flechas, as vezes até caixões eram atravessados em cavaletes para enterrar em povoados vizinhos.


barco utilizado para travessia, durante as enchentes



O DESAFIO DE ENCARAR A DOENÇA DO FILHO PITÉCO EM 2008.    




Durante toda sua vida, meu avô foi um homem tranquilo, tinha uma família grande, que de repente foi surpreendida por uma noticia, um de seus filhos mais velho, estava doente havia sido diagnosticado o câncer. E começou a grande luta, inúmeras viagens para o Hospital Aristides Maltez em Salvador em busca de tratamento. Foi operado no dia 18, de março de 2009, motivo de grande felicidade a cirurgia tinha sido um sucesso, e o tumor totalmente retirado. E uma das coisas mais importantes era alegria daquele homem, enquanto sua mãe chorava ao vê-lo doente ele sorria e me chamava para dançar. Quase 5 anos se passaram, as revisões no hospital eram constantes, até que foi diagnosticado o retorno do tumor, este foi um momento muito difícil para toda a família Andrade, mas uma coisa os mantiam confiantes a alegria de Pitéco, como era carinhosamente chamado. E infelizmente, no dia 27 de agosto de 2013, aquele filho tão alegre do senhor José Francisco se foi. Um momento muito delicado para aquele pai que perdia seu filho para o Câncer, e via sua companheira inconsolável pela morte do filho, mas por ser um homem de poucas palavras, sofreu calado e acabou tendo um principio de AVC,  o que culminou na sua hospitalização no dia do enterro do filho. E hoje, ao se falar nesse assunto com ele o silêncio predomina  e as lágrimas ainda rolam de saudade.


       A PERDA DA SUA FIEL COMPANHEIRA...  



Com a morte de seu filho, José Francisco passou a sofrer de oscilação de pressão arterial, e sua companheira ainda não recuperada da morte do filho, uma senhora já de 81 anos. Começa a apresentar quadros clínicos não muito bons, sofria de diabetes e hipertensão, e precisou ser hospitalizada algumas vezes. Mas infelizmente, em outubro daquele mesmo ano, o câncer foi diagnosticado, e o médico deu aproximadamente 5 meses de vida. E seu José Francisco mesmo sem saber do diagnostico, assistia sua fiel companheira, morrer aos poucos dentro de casa, e por muitas vezes ia para lugares reservados chorar escondido.  Era muito sofrimento para ele e para toda sua família, e para mim, mais ainda, era a neta por quem ela chamava dia e noite, pedindo para  cuidasse dos remédios e da alimentação do avô. Para ele ouvir os gritos de dor daquela mulher com quem ele viveu 64 anos, era muito sofrido e o fazia sentir se inútil. E infelizmente na manhã de sábado do dia 22 de fevereiro de 2014, ele acordou e não ouviu a voz de sua companheira, ela se foi. José Francisco perdeu nesse dia sua esposa tão amada, há menos de 6 meses da perda do filho. Para ele foi o momento mais difícil de sua vida, por não querer sofrer ainda mais, ele decidiu não participar do sepultamento, dizia que preferia guardar a última imagem dela em casa. Diz não ter vontade de ir ao cemitério onde ela esta enterrada, mas que irá quando estiver mais preparado para isso.



 E HOJE.  

José Francisco de Andrade é pai de 10 filhos, avó de cerca de 48 netos, 41 bisnetos e 1 tataraneta.

Durante todas as falas de meu avô, fica  claro, o quanto é ruim viver sozinho hoje, sem a presença da sua esposa, mas se consola dizendo que ela foi por que havia chegado o tempo. Mesmo diante da solidão ele rejeita todos os convites de ir morar com os filhos, afinal é lá que ainda tem o cheiro dela, as coisas dela, a história deles. Se considera  cansado, ou como diz ele já muito vivido, diz que o único lugar para onde ele irá depois da morte da esposa, é para o cemitério também.


...E EU NESTA HISTÓRIA
eu no rio, quando estava seco.



FALANDO COMO NETA, ESSE TRABALHO FOI UM GRANDE DESAFIO, PRINCIPALMENTE EMOCIONAL, FOI COMO DESCOBRIR E REVIVER MOMENTOS, ALGUNS BONS OUTROS NEM TANTO. NO PERÍODO DA PESQUISA DE CAMPO, PERCORRI ROÇAS ONDE MEUS AVÓS MORARAM, E EU TAMBÉM MOREI, POIS FUI CRIADA POR ELES ATÉ OS 10 ANOS DE IDADE, E INTITULEI O ÁLBUM DE FOTOGRAFIAS DE: CONHECENDO MINHA HISTÓRIA. POSSO AFIRMAR QUE HOJE, ME CONHEÇO MUITO MAIS.  TODAS ESSAS IMAGENS SÃO TAMBÉM A MINHA HISTÓRIA, AO PISAR NESSE ALPENDRE DEPOIS DE ALGUNS MESES SEM MINHA VÓ, ERA COMO SE EU AINDA ESCUTASSE AS HISTÓRIAS QUE ELA E MEU AVÔ SEMPRE CONTAVAM, A LUZ DA LUA, POR QUE NÃO TINHA ENERGIA ELÉTRICA. ESSE ALPENDRE PRA MIM TEM SOM, GOSTO, CHEIRO DE HISTÓRIA, CADA LUGAR ME LEMBRA ANOS DA MINHA VIDA. E É TUDO ISSO QUE COMPÕE A MINHA HISTÓRIA. HOJE, NÃO TEM COMO NÃO LEMBRAR DAS LONGAS HISTÓRIAS QUE HOUVIA A POUCO TEMPO ATRÁS QUANDO FALTAVA ENERGIA, E PARA MINHA VÓ ERA COMO REVIVER O TEMPO NA LAGE, E SENTADOS NA CALÇADA PASSAMOS QUASE A NOITE TODA OUVINDO HISTÓRIAS DA VIDA DELES.
alpendre da casa
casa da Lage, onde eu também morei com meus avós 
cozinha
o quarto preferido de minha vó
 FISICAMENTE A HISTÓRIA DE MINHA VÓ SE ESGOTOU AQUI, MAS CERTAMENTE TUDO QUE ELA MESMO QUANDO NÃO FALAVA, ME ENSINOU, FICARÁ GUARDADO PRA SEMPRE. E CONSIDERO ESTA A MELHOR HERANÇA QUE PODERIA RECEBER.



"DE LONGE TAMBÉM SE AMA
SE VENERA E SE QUER BEM
COMO AS SAUDADES QUE SÃO SUA
EU NÃO SINTO POR NINGUÉM"

NESTE DIA ME DISSE O SEGUINTE VERSO:
"AS NUVENS DO CÉU SÃO BRANCAS
AS PARDAS SÃO VERDADEIRAS
AS VERDES SÃO ESPERANÇAS DE NÓS E VER ALGUM DIA."



     




   Referencias:
ROCHA, Rubens, Tucano 16/09/1939. Câmara municipal de Tucano. Impressão Gráfica Tibiriça- Gráfica e Editora
ROCHA, Rubens, Tucano Bahia. A História do Integralismo em Tucano (Partidos políticos, eleições e outras notícias), 2007.
ROCHA, Rubens. Caminhos de Lampião. Impressão gráfica Rodrilena Artes Gráficas.
IGREJA DE SANTA ANA DE TUCANO: UMA JOIA BARROCA DILAPIDADA.
Jadilson Pimentel dos Santos - disponível em: http://www.ufrb.edu.br/ebecult/wp-content/uploads/2012/04/Igreja-de-Santa-Ana-de-Tucano-uma-joia-barroca-dilapidada.pdf.