Nasci na zona rural, em uma família
onde o analfabetismo predomina até hoje, em uma localidade onde era
e ainda é comum pessoas não frequentarem a escola, e muito menos com 7
anos. Mas estar na escola sempre foi meu grande sonho desde muito cedo, e a
realidade onde nasci não conseguiu abafar o meu sonho. Com menos de 7 anos eu
morava afastada do pequeno Povoado onde ficava a escola, e por muitas vezes eu
via meus irmãos mais velhos indo para a escola, com aquela camisa da farda
branca (que após o caminho percorrido de terra vermelha até chegar a escola,
não ficava tão branca) e o pequeno caderno, as atividades, tudo isso me deixava
fascinada pela escola. Tamanho fascínio que eu fazia de tudo para que meus
irmãos me deixasse cobrir as letras das atividades deles. Até que finalmente,
me colocaram na escola. Quanta felicidade para mim, pois ao contrário do que
ouvia as pessoas falarem, que quem mora na não adiantava estudar, eu achava que
ir para escola era extremamente importante, ficava imaginando como seria e
desejando logo o momento de escrever meu nome sozinha, e mais do que isso eu já
tinha dentro de mim o desejo de ser professora, e sabia que não poderia ser
caso não fosse para a escola. Cada letra que cobria e às vezes conseguia
escrever e aos poucos ler, era uma grande conquista.
Ao chegar à escola, que na verdade era
uma casa, e existia uma única turma para todo o pequeno povoado chamado Alto,
era uma turma do pré-escolar até a quarta série com pessoas com idades de 7 a
15 anos. E lá eu estava, e lembro me de meus irmãos rindo de mim, por que eu
tentava ensinar as crianças menores na sala, a fazer as atividades quando na
verdade nem eu sabia ainda fazer. Durante este período cheguei a ter como
professora uma pessoa que havia estudado somente até a 4ª série, e outra até a
3ª, sem nenhum tipo de formação para o ensino. Hoje, uma das minhas professoras
deste período é aluna do TOPA.
| CASA ONDE FUNCIONAVA A ESCOLA. (A CASA CONTINUA DO MESMO JEITO HOJE). FOTO TIRADA DIA 28/08/14. |
Já na 2ª série, lembro me de uma tarde
em que fui surpreendida pelo professor com uma reguada na perna direita, isso
por que meu pé estava apoiado no ferro da carteira. Quando cheguei na 3ª série,
eu nunca havia ficado sequer em recuperação, eu considerava perder de ano um
absurdo, e fui à única menina a passar para a 3ª série. E, além disso, a professora
da 3ª série foi substituída por um professor , quase não me deixavam
ir pra escola para não ficar junto com tanto menino, eu tinha apenas 9
anos de idade, em uma sala com mais de 27 homens, com idades entre 10 e 35
anos.
E, eu odiava perder aula, e muita vez
mentia dizendo que era dia de prova só pra não perder aula, por que eu não
queria perder nem um dia sequer. Lembro-me ainda que com 10 anos, no inicio da
4ª série, estudava na mesma turma que minha irmã de apenas 4 anos que estava no
período pré-escolar. Nesta época lembro me que minha vó me ensinou que eu
deveria estudar embaixo de uma árvore antes do sol nascer, justificando que
isso me ajudaria a aprender melhor, e também que de forma nenhuma poderia tomar
banho no rio após a Escola. Não se era verdade, mas acho que deu certo não
tinha nenhuma dificuldade de aprender na escola, nem mesmo a tão temida
matemática, que por sinal eu amava.
| Escola São Pedro, estudei aqui a 2ª série do primário. Antes tinha apenas uma sala, que era dividida entre os alunos e os morcegos. A escola não era assim, passou por uma grande reforma. |
Enfim, havia chegado a tão esperada 5ª
série, e com ela novos desafios, como a travessia do rio Itapicuru mirim para
chegar até a nova escola, e foi na travessia do rio que perdi muitos livros e
cadernos, quando o barco virava ou entrava água durante o período das grandes
cheias. No período das chuvas muitos tombos e quedas na lama. E por muitas
vezes, a natureza nos impedia de chegar à escola, eu ficava aflita, por que
perdíamos algumas aulas, às vezes semanas inteiras sem ir para a escola quando
o nível do rio estava muito alto, era arriscado fazer a
travessia de crianças.
| Este é o rio Itapicuru , ainda hoje a travessia para a escola é realizada por este barco durante as cheias do rio. |
Considero que por muitas vezes a
escola foi o meu escape, além de ter sido um suporte para muitas coisas,
inclusive para hoje estar na cursando Pedagogia na UNEB, sendo para
minha mãe que teve dez filhos a única filha que estar
cursando nível superior. As marcas que a escola me deixou em sua
maioria foram boas, claro com exceção daquela que a régua deixou na minha perna
direita.
| Escola onde estudei da 5ª a 7ª série, fica em um povoado vizinho ao que eu morava, do outro lado do rio. |
Ao concluir a 7 ª série do ensino
fundamental fui para Salvador onde comecei a 8ª série, e ouvia muitos relatos
de parentes com quem eu morava na época, que eu não deveria ficar triste por
que provavelmente eu iria perder de ano, por que agora eu estava
estudando em uma cidade grande muito diferente da roça onde eu estudava. Eu de
forma nenhuma acreditava naquilo, e achava uma bobagem me subestimarem daquela
forma. Fiquei um pouco apreensiva no inicio das aulas, por que eu não conhecia
ninguém na escola, mas estava segura do que eu queria e da minha capacidade, e
antes mesmo do final da 1ª unidade eu já era uma das melhores alunas da sala,
eu a menina que veio da roça na sala das pessoas da cidade, era isso que alguns
me diziam. Devido ao destaque na sala, tinha moral com a diretora e professores,
e logo passei a ter muitos amigos na sala que buscavam tirar proveito disso.
Por ser do "interior" passei a ter alguns apelidos, mas o que gerava apelidos era principalmente o
fato de ser a única menina da pele clara na sala de aula.
Não foi difícil me perceber
professora durante minha trajetória na escola, pois desde criança quando
comecei a frequenta-la, eu já pensava em um dia ser professora, sempre ajudava
meus colegas a entender determinados assuntos. Porém acredito que o grande
momento em que eu me percebi como professora foi no 2° ano do ensino médio com
um experiente professor de matemática, um senhor de mais de 50 anos com mais de
25 anos em sala de aula. A matemática já me seduzia há anos, desde a 5ª série,
nunca esqueci a voz do professor de matemática que me chamava de “menina
Jhule”, por que eu era a melhor aluna da disciplina. Mas no 2º do
ensino médio, eu descobrir não só o que eu poderia ser, mas o que eu poderia
fazer. E em uma turma de mais 34 alunos, menos de 10% da turma atingiu a média
5 na primeira unidade. E para a surpresa daquele professor eu havia tirado 10,
ele por fim me perguntou por que você tirou 10? Respondi que havia estudado só
isso. No entanto, parte da turma achou que o professor estava aumentando a
minha nota por que eu era da roça (como se isso me colocasse em uma posição de
inferioridade perante ou outros da “cidade”). A fim de provar que ele não
estava aumentando a nota, ele me desfiou, ou seja, eu deveria responder e
explicar a prova toda para os colegas. Timidamente eu aceitei o desafio, e ao
terminar a prova em menos de 1 hora, o professor me disse ”tudo que eu menos
quero é te dar um 10, mas a sua capacidade em responder e explicar tudo isso a
turma”, me obriga. Daquele dia em diante meu nome passou a ser a “menina da
roça” que tirou 10 em matemática. A partir daí devido as dificuldades dos
colegas em matemática convidei alguns para montarmos um grupo de estudo aos
sábados, e todos os sábados das 13:00 às 16:00, e muitas vezes até às 18:00,
nos reuníamos para estudar matemática. E os resultados começaram a aparecer, e
o professor por muitas vezes com a desculpa de que estava cansado, me mandava
dar aula no lugar dele, e isso fiz por muitas vezes. Nisso tudo, o que me fez
perceber que eu poderia ser uma professora foram os resultados daqueles
sábados, no final do ano todos que assistiram as aulas da pró Jú, como
carinhosamente falavam, não somente passaram de ano, mas descobriram formas de
aprender matemática. Daí em diante percebi que valeu a pena ser desafiada
tantas vezes e poder ver meus colegas aprendendo a entender a matemática, o que
para eles era impossível. Jamais esquecerei a voz daquele professor dizendo,
você será uma excelente professora menina da roça, e lembre se só é preciso um
desfio para você perceber que é capaz. E hoje, sei que sou capaz de ser a
“professora da roça” na roça, e possibilitar aos meus alunos um desenvolvimento
crítico, e para além disso dizer para eles que existem possibilidades de ter
uma boa formação, sendo ou não da roça.
E já no curso de pedagogia minha
primeira ida a escola, sem dúvida já esta marcada o suficiente para não ser
esquecida. Foi o meu primeiro contato real com uma turma onde as crianças me
chamavam de professora. Antes mesmo de entrar na sala sentir aquela ansiedade
de ter contato direto com as crianças. Ao entrar na sala e ser apresentada como
a “professora Juliana”, e perceber o olhar de cada criança, que de maneira
curiosa me olhavam. Tive aquela sensação de “agora sim sou professora”. E logo
após alguns minutos observando aquela turma, comecei a perceber também os
desafios que teria e terei pela frente. E o difícil é conter a ansiedade de
falar com as crianças, de esta lá na frente sendo a professora deles de
verdade. Cada olhar me fazia pensar em o quanto é gostoso ser professora, e não
tinha como não lembrar de todas as vezes que fingia ser professora da minha
irmã, primos e com algumas pessoas analfabetas do povoado onde
“moro”. E tudo isso mexe muito com minhas emoções, por que ser
professora não foi simplesmente uma escolha para o vestibular, muito, além
disso, foi uma escolha construída há anos, quando eu ainda nem sabia segurar o lápis
direito. Me emociona, por que ao entrar na sala me vem a memoria
quantas coisas já tentaram me impedir de chegar até aqui, mas eu venci e
cheguei, percebo que as circunstâncias não me barraram. Ao sair da escola, eu
estava ainda mais convicta da minha escolha para ser professora, a pró Juliana,
a Menina da Roça.
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| Desfile 7 de setembro, na 6ª série |
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parabéns ju seu blog e muito bom .. adorei sucesso :)
ResponderExcluirObrigada Beatriz Santos.
ExcluirAmiga ÁGUIA, sua história é o reflexo de muitas Julianas. Que bom que vc sonhou e que nesse sonho uma garotinha retorna a Alto como professora, mestre em oferecer Educação de qualidade aos que ainda estão as margens desta sociedade injusta e cruel. Bjos miga.
ResponderExcluirPARABÉNS!! pelo blog
Para continuar sonhando também preciso estar perto de outras águias, tais como vc, que muito mais do que uma amiga ou colega de classe, é uma amiga-irmã, que me inspira todos os dias, me incentiva a buscar vôos mais altos, mesmo quando estar em silêncio. Sara dizer que te amo não resume meus sentimentos e admiração por vc.bjos
ExcluirLer seu blog fez-me relembrar das escolas onde cursei os ensinos fundamental e médio,dos colegas,diretoras e de vários professores - em especial as profªs Regina e Margarida,porém lembro pouco do pré-escolar.Era um momento muito esperado ver comprados e organizados meus livros,materiais e uniforme;rever e conhecer colegas,estudar,ser aprovada. Deu até vontade de escrever sobre esse momento de minha vida escolar.Parabéns!Gostei muito.
ResponderExcluirQue bom Rosane, até hoje tenho a mesma sensação de ansiedade com o material escolar, de aprender coisas novas no inicio do semestre. Espero que vc resolva escrever vai ser um prazer ler suas recordações.
Excluirbjos
Que história linda Juli. Você vai longeee🤩
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