quinta-feira, 4 de setembro de 2014

RECORDAÇÕES DA ESCOLA


Nasci na zona rural, em uma família onde o analfabetismo predomina até hoje,  em uma localidade onde era e ainda é comum pessoas não frequentarem a escola, e muito menos com 7 anos. Mas estar na escola sempre foi meu grande sonho desde muito cedo, e a realidade onde nasci não conseguiu abafar o meu sonho. Com menos de 7 anos eu morava afastada do pequeno Povoado onde ficava a escola, e por muitas vezes eu via meus irmãos mais velhos indo para a escola, com aquela camisa da farda branca (que após o caminho percorrido de terra vermelha até chegar a escola, não ficava tão branca) e o pequeno caderno, as atividades, tudo isso me deixava fascinada pela escola. Tamanho fascínio que eu fazia de tudo para que meus irmãos me deixasse cobrir as letras das atividades deles. Até que finalmente, me colocaram na escola. Quanta felicidade para mim, pois ao contrário do que ouvia as pessoas falarem, que quem mora na não adiantava estudar, eu achava que ir para escola era extremamente importante, ficava imaginando como seria e desejando logo o momento de escrever meu nome sozinha, e mais do que isso eu já tinha dentro de mim o desejo de ser professora, e sabia que não poderia ser caso não fosse para a escola. Cada letra que cobria e às vezes conseguia escrever e aos poucos ler, era uma grande conquista.
Ao chegar à escola, que na verdade era uma casa, e existia uma única turma para todo o pequeno povoado chamado Alto, era uma turma do pré-escolar até a quarta série com pessoas com idades de 7 a 15 anos. E lá eu estava, e lembro me de meus irmãos rindo de mim, por que eu tentava ensinar as crianças menores na sala, a fazer as atividades quando na verdade nem eu sabia ainda fazer. Durante este período cheguei a ter como professora uma pessoa que havia estudado somente até a 4ª série, e outra até a 3ª, sem nenhum tipo de formação para o ensino. Hoje, uma das minhas professoras deste período é aluna do TOPA.

CASA ONDE FUNCIONAVA A ESCOLA. (A CASA CONTINUA DO MESMO JEITO HOJE). FOTO TIRADA DIA 28/08/14.

Já na 2ª série, lembro me de uma tarde em que fui surpreendida pelo professor com uma reguada na perna direita, isso por que meu pé estava apoiado no ferro da carteira. Quando cheguei na 3ª série, eu nunca havia ficado sequer em recuperação, eu considerava perder de ano um absurdo, e fui à única menina a passar para a 3ª série. E, além disso, a professora da 3ª série foi substituída por um professor , quase não me deixavam ir pra escola para não ficar junto com tanto menino, eu tinha apenas 9 anos de idade, em uma sala com mais de 27 homens, com idades entre 10 e 35 anos. 

Escola conde estudei a 3ª e a 4ª série, era na verdade uma sala da casa alugada, pois a família continuava morando dentro da casa. Estudava em uma turma só de meninos, também era uma turma multisseriada, Hoje esta casa ainda funciona como sala de aula.

E, eu odiava perder aula, e muita vez mentia dizendo que era dia de prova só pra não perder aula, por que eu não queria perder nem um dia sequer. Lembro-me ainda que com 10 anos, no inicio da 4ª série, estudava na mesma turma que minha irmã de apenas 4 anos que estava no período pré-escolar. Nesta época lembro me que minha vó me ensinou que eu deveria estudar embaixo de uma árvore antes do sol nascer, justificando que isso me ajudaria a aprender melhor, e também que de forma nenhuma poderia tomar banho no rio após a Escola. Não se era verdade, mas acho que deu certo não tinha nenhuma dificuldade de aprender na escola, nem mesmo a tão temida matemática, que por sinal eu amava.

Escola São Pedro, estudei aqui a 2ª série  do primário. Antes tinha apenas uma sala, que era dividida entre os alunos e os morcegos. A escola não era assim, passou por uma grande reforma. 


Enfim, havia chegado a tão esperada 5ª série, e com ela novos desafios, como a travessia do rio Itapicuru mirim para chegar até a nova escola, e foi na travessia do rio que perdi muitos livros e cadernos, quando o barco virava ou entrava água durante o período das grandes cheias. No período das chuvas muitos tombos e quedas na lama. E por muitas vezes, a natureza nos impedia de chegar à escola, eu ficava aflita, por que perdíamos algumas aulas, às vezes semanas inteiras sem ir para a escola quando o nível do rio estava muito alto, era arriscado fazer a travessia de crianças.
Este é o rio Itapicuru , ainda hoje a travessia para a  escola é realizada por este barco durante as cheias do rio.

 Considero que por muitas vezes a escola foi o meu escape, além de ter sido um suporte para muitas coisas, inclusive para hoje estar na cursando Pedagogia na UNEB, sendo para minha mãe que teve dez filhos a única filha que estar cursando nível superior. As marcas que a escola me deixou em sua maioria foram boas, claro com exceção daquela que a régua deixou na minha perna direita.
Escola onde estudei da 5ª a 7ª série, fica em um povoado vizinho ao que eu morava, do outro lado do rio.

 Ao concluir a 7 ª série do ensino fundamental fui para Salvador onde comecei a 8ª série, e ouvia muitos relatos de parentes com quem eu morava na época, que eu não deveria ficar triste por que provavelmente eu iria perder de ano, por que agora eu estava estudando em uma cidade grande muito diferente da roça onde eu estudava. Eu de forma nenhuma acreditava naquilo, e achava uma bobagem me subestimarem daquela forma. Fiquei um pouco apreensiva no inicio das aulas, por que eu não conhecia ninguém na escola, mas estava segura do que eu queria e da minha capacidade, e antes mesmo do final da 1ª unidade eu já era uma das melhores alunas da sala, eu a menina que veio da roça na sala das pessoas da cidade, era isso que alguns me diziam. Devido ao destaque na sala, tinha moral com a diretora e professores, e logo passei a ter muitos amigos na sala que buscavam tirar proveito disso. Por ser do "interior" passei a ter alguns apelidos,  mas o que gerava apelidos era principalmente o fato de ser a única menina da pele clara na sala de aula.
Não foi difícil me perceber professora durante minha trajetória na escola, pois desde criança quando comecei a frequenta-la, eu já pensava em um dia ser professora, sempre ajudava meus colegas a entender determinados assuntos. Porém acredito que o grande momento em que eu me percebi como professora foi no 2° ano do ensino médio com um experiente professor de matemática, um senhor de mais de 50 anos com mais de 25 anos em sala de aula. A matemática já me seduzia há anos, desde a 5ª série, nunca esqueci a voz do professor de matemática que me chamava de  “menina Jhule”, por que eu era  a melhor aluna da  disciplina. Mas no 2º do ensino médio, eu descobrir não só o que eu poderia ser, mas o que eu poderia fazer. E em uma turma de mais 34 alunos, menos de 10% da turma atingiu a média 5 na primeira unidade. E para a surpresa daquele professor eu havia tirado 10, ele por fim me perguntou por que você tirou 10? Respondi que havia estudado só isso. No entanto, parte da turma achou que o professor estava aumentando a minha nota por que eu era da roça (como se isso me colocasse em uma posição de inferioridade perante ou outros da “cidade”). A fim de provar que ele não estava aumentando a nota, ele me desfiou, ou seja, eu deveria responder e explicar a prova toda para os colegas. Timidamente eu aceitei o desafio, e ao terminar a prova em menos de 1 hora, o professor me disse ”tudo que eu menos quero é te dar um 10, mas a sua capacidade em responder e explicar tudo isso a turma”, me obriga. Daquele dia em diante meu nome passou a ser a “menina da roça” que tirou 10 em matemática. A partir daí devido as dificuldades dos colegas em matemática convidei alguns para montarmos um grupo de estudo aos sábados, e todos os sábados das 13:00 às 16:00, e muitas vezes até às 18:00, nos reuníamos para estudar matemática. E os resultados começaram a aparecer, e o professor por muitas vezes com a desculpa de que estava cansado, me mandava dar aula no lugar dele, e isso fiz por muitas vezes. Nisso tudo, o que me fez perceber que eu poderia ser uma professora foram os resultados daqueles sábados, no final do ano todos que assistiram as aulas da pró Jú, como carinhosamente falavam, não somente passaram de ano, mas descobriram formas de aprender matemática. Daí em diante percebi que valeu a pena ser desafiada tantas vezes e poder ver meus colegas aprendendo a entender a matemática, o que para eles era impossível. Jamais esquecerei a voz daquele professor dizendo, você será uma excelente professora menina da roça, e lembre se só é preciso um desfio para você perceber que é capaz. E hoje, sei que sou capaz de ser a “professora da roça” na roça, e possibilitar aos meus alunos um desenvolvimento crítico, e para além disso dizer para eles que existem possibilidades de ter uma boa formação, sendo ou não da roça.

E já no curso de pedagogia minha primeira ida a escola, sem dúvida já esta marcada o suficiente para não ser esquecida. Foi o meu primeiro contato real com uma turma onde as crianças me chamavam de professora. Antes mesmo de entrar na sala sentir aquela ansiedade de ter contato direto com as crianças. Ao entrar na sala e ser apresentada como a “professora Juliana”, e perceber o olhar de cada criança, que de maneira curiosa me olhavam. Tive aquela sensação de “agora sim sou professora”. E logo após alguns minutos observando aquela turma, comecei a perceber também os desafios que teria e terei pela frente. E o difícil é conter a ansiedade de falar com as crianças, de esta lá na frente sendo a professora deles de verdade. Cada olhar me fazia pensar em o quanto é gostoso ser professora, e não tinha como não lembrar de todas as vezes que fingia ser professora da minha irmã, primos e com algumas pessoas analfabetas do povoado onde “moro”.  E tudo isso mexe muito com minhas emoções, por que ser professora não foi simplesmente uma escolha para o vestibular, muito, além disso, foi uma escolha construída há anos, quando eu ainda nem sabia segurar o lápis direito.  Me emociona, por que ao entrar na sala me vem a memoria quantas coisas já tentaram me impedir de chegar até aqui, mas eu venci e cheguei, percebo que as circunstâncias não me barraram. Ao sair da escola, eu estava ainda mais convicta da minha escolha para ser professora, a pró Juliana, a Menina da Roça. 

Desfile 7 de setembro, na 6ª série

DEIXE UM BREVE RELATO SOBRE SUAS RECORDAÇÕES DA ESCOLA

7 comentários:

  1. parabéns ju seu blog e muito bom .. adorei sucesso :)

    ResponderExcluir
  2. Amiga ÁGUIA, sua história é o reflexo de muitas Julianas. Que bom que vc sonhou e que nesse sonho uma garotinha retorna a Alto como professora, mestre em oferecer Educação de qualidade aos que ainda estão as margens desta sociedade injusta e cruel. Bjos miga.
    PARABÉNS!! pelo blog

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Para continuar sonhando também preciso estar perto de outras águias, tais como vc, que muito mais do que uma amiga ou colega de classe, é uma amiga-irmã, que me inspira todos os dias, me incentiva a buscar vôos mais altos, mesmo quando estar em silêncio. Sara dizer que te amo não resume meus sentimentos e admiração por vc.bjos

      Excluir
  3. Ler seu blog fez-me relembrar das escolas onde cursei os ensinos fundamental e médio,dos colegas,diretoras e de vários professores - em especial as profªs Regina e Margarida,porém lembro pouco do pré-escolar.Era um momento muito esperado ver comprados e organizados meus livros,materiais e uniforme;rever e conhecer colegas,estudar,ser aprovada. Deu até vontade de escrever sobre esse momento de minha vida escolar.Parabéns!Gostei muito.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Que bom Rosane, até hoje tenho a mesma sensação de ansiedade com o material escolar, de aprender coisas novas no inicio do semestre. Espero que vc resolva escrever vai ser um prazer ler suas recordações.
      bjos

      Excluir
  4. Que história linda Juli. Você vai longeee🤩

    ResponderExcluir